Karol e Hémely se conheceram no ensino médio, em 2008. Tinham cerca de 14 anos, eram amigas e tinham várias interações na escola. Mas, depois que se formaram, romperam bruscamente o contato e Karol não entendeu o motivo. Mais de dois anos depois voltaram a se falar, em 2014, quando a avó de Karol (quem a criou) estava internada e Hémely soube. Sabia o quanto isso era importante para ela, então mandou uma mensagem.
Karol aproveitou a mensagem e perguntou o que havia acontecido para aquele afastamento brusco acontecer e a resposta era a pressão familiar da Hémely. Eles tratavam a Karol com muito preconceito, falavam que ela era diferente, que elas namoravam… Sendo que elas nunca haviam sentido nada além da amizade (ou não identificavam isso até então), entendiam sim que era uma amizade muito forte, unida, que prometiam não se deixar, mas ainda assim não era um lugar romântico.
A avó de Karol sempre foi uma pessoa muito tranquila e aberta, aceitava ela como ela é. Queria que ela fosse feliz sendo era, sozinha ou com alguém. Já a família de Hémely, sempre teve sua cultura moldada pela religião, não deixava Hémely ter acesso a muita coisa. Quando voltaram a se falar, com a avó de Karol no hospital, Hémely pensou no quanto Karol deveria estar triste, então se dispôs a comprar comidas, preparar lanches e chegou na casa dela com sacolas, frutas, muito apoio, disposta a ajudar e a voltar para sua vida, independente se sua família gostasse disso ou não.
A avó de Karol infelizmente faleceu alguns dias depois da internação. Foi um baque gigantesco. Naquele momento Karol tinha apenas 20 anos, perdeu sua família, sua base. Hémely foi o principal suporte, junto com o apoio de outra amiga. A avó de Karol sempre a criou dizendo que quando ela morresse, ninguém seria por ela, que ela precisaria aprender a se virar… E assim o fez. O primeiro ano foi muito difícil, passou por diversas violências e precisou reaprender a viver.
Ainda nesse primeiro ano, entre o luto, o suporte e tantas coisas que aconteciam, Karol e Hémely começaram a se envolver romanticamente e decidiram assumir o relacionamento. Entenderam que gostavam uma da outra há muito tempo, eram suas redes de apoio e construíam um amor, queriam investir no que sentiam. Porém, Hémely foi criada sob um olhar preconceituoso e ainda se via com preconceito, via outras pessoas gays com preconceito, levou muito tempo para quebrar seus bloqueios e entender que estava tudo bem viver esse amor, não era um pecado e ela não era uma pessoa estranha, só era ela mesma e estava fazendo algo bom, vivendo algo feliz.
O começo do namoro envolveu diversos desafios simultâneos: a vida da Karol estava virada de cabeça para baixo - o luto, a violência com os familiares que não possuía contato tendo que lidar depois da morte da avó, ela se reconhecendo nessa nova vida, um relacionamento acontecendo - e a vida de Hémely em redescoberta sobre a sua sexualidade, um novo amor, o medo que seu próprio preconceito causara e sua família descobrindo tudo isso. Seu pai desconfiava, deixou de falar com ela ao ver ela se reaproximando da Karol e viveram um rompimento muito difícil, principalmente por terem sido muito próximos a maior parte da vida. Cada vez mais, a relação entre elas virava um ponto de apoio mais forte e necessário.
Como a relação entre Hémely e a sua família piorava com o tempo, a partir de 2016 ela e Karol começaram os planos de morar juntas, mas só em 2019 Hémely conseguiu morar na casa de Karol. A mudança ocorreu de fato alguns meses depois, quando alugou um caminhão e buscou suas coisas na casa da sua família. Foi um processo longo, superando medos, com terapia e respeito ao próprio tempo, porque são vários contextos de violência e é preciso ter dinheiro também para alugar um novo espaço, mas conseguiram dividir um lar.
Logo depois, moraram juntas num apartamento um pouco maior: esse que fizemos as fotos e que adoram estar, passear na pracinha, olhar as árvores… É um lugar que se sentem bem. Alguns meses após estarem dividindo a casa, Karol trabalhava enquanto técnica de enfermagem e precisou estar na linha de frente do combate ao Covid-19 durante a pandemia, então a rotina mudou um pouco e vieram novos desafios, mas afirmam o tempo todo: ‘o caminho é para frente, não tem outra opção, não tem como parar ou voltar, estamos seguindo e seguindo juntas, ainda que devagarinho’.
Falam também da importância da arte nesse processo todo que viveram. Karol recebeu o diagnóstico de autismo nos últimos anos e pôde entender um pouco mais sobre si mesma e sobre como lida com a vida. Lembra hoje em dia das violências e pensa como a arte foi a grande aliada. As músicas que ouvia (cita Maria Bethânia, Francisco El Hombre…) e o quanto elas sempre se apagaram nas múltiplas expressões artísticas para conseguir respirar e sentir que os processos passariam. Hémely completa que juntas sempre combinaram de serem suporte, não desistir, sobreviver.
Karol estava com 31 anos no momento da documentação, trabalha enquanto psicóloga e adora ler, é seu maior hobbie. Gosta de praticar atividades físicas porque acredita que isso mantém o corpo regulado, é uma pessoa metódica e gosta da rotina. Tem uma moto, adora mexer nela e se sentir um pouco mecânica, descobrir como as coisas na moto funcionam. É natural de Recife e morou muito tempo da sua vida em Abreu e Lima, então a moto foi de grande ajuda para se locomover entre as cidades, dando maior independência.
Hémely estava com 31 anos no momento da documentação. Trabalha como escrevente extrajudicial no cartório, é formada em direito e hoje em dia cursa ciências sociais. Se formar em direito foi uma batalha, por conta de diversos entraves com seu pai, mas depois de muita luta conseguiu terminar o curso - e hoje em dia estuda o que realmente ama. Além dos estudos, adora assistir filmes, ou melhor, dormir no sofá enquanto assiste filmes… e ler.
Para Karol e Hémely, a história que elas constroem e o amor presente nela serve de base para abrir portas para que outras pessoas não precisem viver o mesmo. Ou seja, não querem que o preconceito siga existindo, que outras pessoas passem pelas violências que elas passaram. Querem que seus familiares se espelhem no amor verdadeiro que elas vivem, que seus amigos saibam que ali existe com quem contar, que outras pessoas possam ouvir suas histórias e que não precisem passar por tanta dor como elas passaram para ficarem juntas… Acreditam que vivemos coisas para aprender e devolver o aprendizado de alguma forma, compartilhar para mudar as realidades, e esse também é um ato de amor, de estarem dispostas a mudar as coisas.
Karol vê o amor no cotidiano, no presente, no respeito que existe na relação, no companheirismo que atravessa o dia-a-dia, os problemas e os desafios. Alinhando as expectativas, as conversas difíceis e as individualidades. Adora cultivar a relação, compartilhar o sonho. Fica feliz de viver um relacionamento que constroem com tanto carinho, fazendo essa escolha diária. Entendem que isso é o tempo, uma parte da história, mas que até então agora é a melhor de todas as partes que já viveram.
Hémely fala sobre o relacionamento ser marcado por vários recomeços, e dentre esses recomeços, várias conquistas. Essa é a parte que a deixa mais feliz. O amor que vive com Karol mudou a forma que ela enxerga o mundo e foi um despertar para ela própria também, foi quando ela olhou para os próprios vazios, se acolheu, olhou para outras relações de forma diferente. E segue os processos porque acredita o quanto ainda podem crescer.
























