Sue estava com 64 no momento da documentação e nasceu em Salvador. Quando seus pais se separaram, mudou-se para Maceió com a mãe, que trabalhava na Petrobras. Em seguida, viveu no Rio de Janeiro sua maior infância até os 25 anos, formando-se com forte influência carioca. Em 1998, retornou à Maceió para atuar no Teatro Deodoro, onde conheceu Silvana. Hoje, compartilham a vida e o trabalho, dirigindo juntas uma produtora cultural.
Silvana estava com 58 anos no momento da documentação, nasceu em Maruim, Sergipe, e chegou em Maceió no ano de 1982. Jornalista, radialista e produtora cultural, sempre esteve ligada ao meio artístico. Criou o primeiro caderno de cultura do principal jornal da cidade e, posteriormente, trabalhou no Teatro Deodoro. Como frequentadora assídua das artes cênicas, encontrou lá uma verdadeira realização profissional.
A relação entre elas começou pela admiração no trabalho. Durante as trocas na rotina do Teatro Deodoro, Sue já nutria sentimentos por Silvana. Juntas, fizeram uma verdadeira revolução artística na cidade, reabrindo um teatro centenário que ficou 11 anos fechado e que nem era mais considerado. Sem a facilidade da internet, num mundo de comunicações por fax, enfrentaram desafios para recolocar o espaço no circuito cultural nacional. Entre projetos, parcerias e grandes aprendizados, construíram um vínculo que ultrapassou o trabalho, tornando-se um amor sólido, baseado no respeito, na arte e na construção de um legado cultural alagoano.
Sue conta que a relação sempre esteve entrelaçada ao trabalho, especialmente no início, quando chegou de Salvador após uma outra relação turbulenta que havia acabado. Trouxe consigo uma bagagem cultural fresca da Bahia e do Rio de Janeiro, que se refletiu no que estavam construindo no Teatro Deodoro. Juntas, ela e Sil levantaram diversos espetáculos e recolocaram o teatro no mapa cultural do Brasil, elevando o profissionalismo artístico em Alagoas - tudo isso sob a liderança de duas mulheres lésbicas, importante ressaltar.
Ambas sempre se entenderam como lésbicas e viveram essa identidade de forma natural dentro dos meios culturais que frequentavam. Nos anos 70, 80 e 90, Sue no Rio e Sil em Sergipe encontraram espaços onde a sexualidade não era um tabu. No entanto, conversam muito e sentem que hoje as coisas estão dentro de muitas “gavetas” Estas “gavetas” estão aí para realmente trazer liberdade, identidade, autonomia e auto afirmação do que cada um é, mas muitas vezes acabam dividindo mais, se tornando uma separação. “E eu não gosto de separação. Eu gosto de tudo misturado. Não gosto de ambientes que são só isso ou só aquilo. Gosto de gente.”
Por conta do trabalho, Sue e Sil abriram mão de viver uma rotina mais romântica. Como passam a maior parte do tempo juntas, lidando com demandas intensas e muitas pessoas (ainda mais agora, com o escritório dentro de casa), aprenderam a valorizar os momentos de tranquilidade a sós. Para elas, esses instantes de calma são essenciais para manter o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal.
Elas reconhecem o impacto do que fizeram: duas mulheres liderando espetáculos em Alagoas era algo inédito. Foi assim que se encontraram, criando projetos culturais transformadores, como o “Teatro é o Maior Barato”, que democratizou o acesso ao teatro com ingressos a R$ 1,99, e espetáculos que circulavam pelo estado. Além de movimentar a cena artística, construíram uma relação de pertencimento com o público, que passou a ver o teatro como um espaço acessível e vibrante.
Sil sempre teve paixão pelo jornalismo e adorava sair pelo estado imaginando matérias, transformando a busca por pautas em uma brincadeira. Como o mercado era novo, havia muito a explorar: tudo era cultura. Até os anos 90, Alagoas sequer tinha uma coluna dedicada ao tema nos jornais, sendo reduzido a notas esporádicas indicando filmes ou menções na coluna social. Criar um espaço fixo para a cultura se tornou um vício, um compromisso de dar voz e visibilidade à produção artística local.
A relação começou de forma intensa, marcada por um gesto simbólico: Sue morava em um lugar muito quente, sem estrutura porque havia recém se mudado, e Sil apareceu com um ar-condicionado de presente. “A gente já tinha começado a namorar, ela chegou lá em casa, um forno! No outro dia, chega com o ar-condicionado… e depois ela.” Foram se envolvendo e percebendo que compartilhavam o mesmo ritmo e gostos. Hoje, olham para trás e se surpreendem: “25 anos de relação! É muito tempo! Mas, ao mesmo tempo, a gente vai se descobrindo e redescobrindo.”
Atualmente, moram ao lado da família de Sil, para estarem próximas da mãe idosa, em uma vila acolhedora e repleta de gatos. Recentemente passaram por uma grande reforma em casa, o que exigiu ainda mais energia e paciência. Refletem sobre as inúmeras crises que enfrentaram - principalmente financeiras, pela instabilidade do trabalho em um país que não valoriza a cultura - e reconhecem que nem todo casal suportaria esses desafios. Mas atravessar tudo isso juntas fortaleceu ainda mais o amor. Entre noites que se olham antes de dormir e percebem o cansaço e momentos de conexão, sabem exatamente como lidar uma com a outra, guiadas por maturidade e intimidade construídas ao longo desses 25 anos.
Sue sente que Sil trouxe um chão para sua vida, mesmo quando ela mesma diz se sentir insegura. “A Sil trouxe para mim, apesar dela dizer que não lida, que enlouquece, que fica insegura, mas ela trouxe para mim, para a minha vida, uma segurança em um lastro, um chão, que é tão importante. Eu nem sei se estaria nesse plano ainda. Porque eu era muito desligada, muito apaixonada por tudo, entrava de cabeça em tudo, de tudo, de trabalho. E a Sil, sem impor nada. Ela veio, foi amor mesmo, com o amor dela. E ela me acolheu de uma forma que eu cresci. Me tornei uma pessoa muito melhor. Para mim mesma.”
























